POLÍCIA
ROBINSON CAVALCANTI
Dinheiro
e rancor motivaram morte de bispo, diz delegado
Delegado disse que filho do bispo Robinson Cavalcanti confessou crime e
não mostrou arrependimento. Ele será indiciado por homicídio duplamente
qualificado.
O abandono e desprezo dos pais e a preocupação com a herança foram os
motivos que levaram o rapaz de 29 anos a matar o bispo da Igreja Anglicana dom
Edward Robinson Cavalcanti , 67 anos, e a professora aposentada Mirian Nunes
Machado Cotias, 64 anos. Essa é a conclusão da polícia após as investigações. O
gestor do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), Joselito
Kehrle, disse, na manhã desta segunda-feira, 5, que o filho do casal confessou
o crime à polícia e não demonstrou qualquer arrependimento. Com a decretação da
prisão preventiva, o inquérito pode ser concluído ainda esta semana.
De acordo com Kehrle, o suspeito depôs durante quatro horas logo após
receber alta do Hospital da Restauração (HR), no bairro do Derby, área central
do Recife, onde estava internado desde o dia do crime, no último dia 26, por
intoxicação. "Ele ainda não articulava bem as palavras, mas foi muito
seguro no que dizia. Disse que o pai era muito áustero, que se sentiu muito
abandonado, desprezado por ele durante os anos que viveu nos Estados Unidos,
contradizendo as testemunhas", explicou.
O delegado contou que o investigado veio ao Brasil por causa de uma
audiência marcada para maio que iria decidir a deportação dele dos Estados
Unidos, onde ele responde a 15 processos no estado de Miami, nenhum por
homicídio. Em um deles, ele é réu por dirigir embriagado e sem habilitação e
chegou a passar três meses preso. O suspeito vivia com uma norte-americana e
tem três filhos com ela. "Ele voltou para a casa dos pais por causa do
perigo de deportação e decidiu ficar e pedir ajuda financeira ao bispo para
trazer a família dos Estados Unidos. Com a negativa do bispo, o sentimento de
desprezo e de abandono por ele e pela família dele ficou exacerbado. Foi quando
ele decidiu maquinar a morte do pai", falou.
Segundo Kehrle, ainda nos Estados Unidos, o suspeito soube que o pai
estava albergando duas moças em casa, que fica no bairro dos Bultrins, em
Olinda. "Ele perguntou a um amigo do bispo se as mulheres teriam direito à
herança dos pais. Então, mesmo que não tenha sido taxativo, ele também se
preocupava com o dinheiro. Ele quis voltar também para ocupar o lugar dessas
moças e ter direito à herança", falou. Ao chegar no aeroporto do Recife, o
homem chegou a pesquisar como poderia conseguir uma arma, segundo ele, para
segurança própria.
O delegado disse que, no dia do crime, o suspeito foi ao culto com os
pais. "Durante o culto, ele ficou muito ansioso, eufórico e tomou um
remédio psicotrópico chamado Zenax, prescrito por um médico nos EUA. Quando
chegou em casa, ele trancou a porta e ficou com a chave. Depois, atacou o pai
com uma faca peixeira. A mãe tentou intervir e também levou uma facada. Depois,
ele se voltou para o pai novamente. Ele contou que tinham pessoas olhando tudo
pela janela da residência", explicou.
Ao todo, o bispo foi atingido com três golpes e Mirian com um. "Nós
acreditamos que a mãe não era o alvo, ele tinha até um certo afeto por ela. Ela
só morreu porque tentou intervir no assassinato do pai. Pois, segundo o
investigado, a Mirian também não era muito bem tratada pelo pastor, que se
preocupava muito com a carreira religiosa. No fim do depoimento, ele disse que
não havia arrependimento, que as mortes foram resultado de todos esses anos de
abandono. Ele disse que amava muito os três filhos dele, que ele queria esse
amor dispensado pelo pai", contou.
O pó branco achado na casa era o remédio Zenax raspado. Ao todo, o
suspeito ingeriu 60 cápsulas, antes e depois do crime. O resultado do exame
toxicológico ainda não ficou pronto. A polícia não vai pedir exame psicológico.
Depois dos homicídios, o homem também desferiu cerca de 20 facadas contra o
próprio corpo, mas os ferimentos foram superficiais. A faca usada foi uma
simples, de mesa.
Sobre o envolvimento com gangues, o delegado disse que o suspeito
conhecia a Salva Maratrucha, porém, ele integrava uma formada por imigrantes
ilegais de Cuba e da Itália, envolvida com tráfico de drogas, roubos e
homicídio. "Ele entrou para esse grupo, liderado por Jon Gary Jr, segundo
o investigado, logo quando chegou aos Estados Unidos. O 'batismo' foi repassar
um quilo de heroína. Só que ele acabou viciado na droga também", contou
Kehrle.
O homem mudou-se para os EUA aos 16 anos por ordem da família. Segundo o
delegado, ele chegou a trabalhar cinco anos lá como operador de empilhadeira.
"Um fato que o deixava com raiva era que, quando morava com a tia, o bispo
mandava dinheiro para ela e não para ele", falou. O suspeito também comentou
à polícia que um dia foi a um motel com uma mulher, os dois consumiram heroína
e, na manhã seguinte, ela estava morta. Ele nega autoria do crime. As
informações solicitadas pela polícia pernambucana ao Consulado Americano ainda
não chegaram.
A polícia já ouviu nove testemunhas e pode ainda colher mais depoimento
de acordo com a necessidade. O investigado será autuado por homicídio
duplamente qualificado - motivo fútil e crueldade no assassinato, já que as
vítimas não tiveram condições de se defender. Pelos crimes, ele pode pegar de
12 a 30 anos de prisão.
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